A cidade e o interior na minha lembrança

  

Imagem do livro de Nêgo Bispo (a terra dá, a terra quer)


Nesse mundo de hoje em dia parece que o povo do interior aprendeu coisa feia foi na cidade. Pois, quem foi para a cidade na esperança de trabalhar e ganhar um dinheirinho e sustentar a família, na verdade não arrumou emprego; aprendeu com o homem da cidade a roubar, a traficar.

No interior de outrora de nada disso se sabia. No interior, a roça não tinha cerca reforçada. A que havia, era baixa e com pouca proteção, de vara franzina e amarrada de cipó, só para proteger de algum quadrupede criado solto que podia comer a plantação. Mas, medo de gente roubar a melancia, o feijão, a mandioca. Isso ninguém tinha medo. Todo mundo se respeitava. Respeitava a roça do outro, mesmo ali no aberto. Aliás, quem passava, admirava.

Mas, na cidade não é assim. Quem tem mais condição trata logo de fazer um muro alto e reforçado com medo de ser roubado/furtado. Tem casa muito protegida e ainda assim é furtada. Tem câmera, vigia e tudo. Pouco adianta. Na roça não tem câmera, nem vigia, nem seguro. E ninguém rouba a plantação.

No interior, num passado não tão distante, não se tinha smartphone, nem vídeo que ensina a fazer coisa errada. A gente aprendia com os mais velhos, aprendia coisa certa.

Nêgo Bispo[1], um doutor popular diz que na cidade gente tem medo de gente. Mas, nas comunidades (interior/zona rural/favela) ninguém tem medo de gente. A cidade é feita de posseiros; o interior é feito de pessoas.

Na cidade o saber é transformado em mercadoria e essa mercância produz riqueza além da conta; no interior, o saber cura as pessoas, com a rezadeira que tira um remédio de um “pé de mato”.





[1] Antônio Bispo dos Santos OMC OME (Francinópolis10 de dezembro de 1959 – São João do Piauí3 de dezembro de 2023), popularmente conhecido como Nêgo Bispo, foi um filósofopoetaescritorprofessor, líder quilombola e ativista político brasileiro. Fonte: Wikipedia.

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