Artigo de Antonio José de Souza Silva
Introdução
Além do fator espiritual ancestral da família Tremembé, a missão carrega
traços políticos e culturais que revelam ao Estado Brasileiro a necessidade de
corrigir as injustiças cometidas desde o período colonial.
A Missão em Tutóia
Nos dias 26 e 27 de julho de 2025, esteve no município de Tutóia
(Maranhão) uma missão dos indígenas de Almofala (Ceará), chefiada pelo
cacique João Venâncio.
O grupo contou com a presença de vários membros da família Tremembé de
diferentes regiões, incluindo o Pajé Amarildo, da comunidade indígena de
Jericoacoara (CE), e as lideranças Duval — octogenário — e sua
filha Rosa, ambos indígenas Tremembés do município de Raposa
(MA), além de colaboradores não indígenas que apoiam a causa.
Recepção e Ritual do Torém
Em Tutóia, no povoado Dendê, Maria preparava o ritual do Torém
para recepcionar a comitiva. Venâncio já percorre essa rota há 23 anos, desde
sua primeira visita em fevereiro de 2002, a convite do vigário da Paróquia de
Tutóia, Padre Francisco das Chagas.
Naquele ano, a Igreja lançou a Campanha da Fraternidade com o tema
“Fraternidade e Povos Indígenas” e o lema “Uma terra sem males”.
O grupo esteve em Tutóia Velha, local do antigo aldeamento Tremembé do
início do século XVIII, fundado pelo Padre João Tavares, onde foi
construída uma capela sobre os ossos de indígenas massacrados anos antes pela
ação conjunta do Estado e da Igreja Portuguesa.
Encontro e Reconexão
Foi nesse momento que Venâncio teve seu primeiro contato com a história
ancestral e a realidade dos parentes Tremembés do litoral maranhense. Também
conheceu Maria, uma mulher Tremembé sobrevivente, que resiste e insiste
em viver no território de seus antepassados, preservando tradições no Dendê,
próximo ao riacho Bangüê.
Maria encontrou no cacique Venâncio o apoio necessário para seguir na
luta pelo reconhecimento de sua identidade e cultura, sendo parte da família
Tremembé dispersa na região do Baixo Parnaíba Maranhense.
Mesa de Conversa
Na noite do dia 27, encerrando o segundo dia de visita, ocorreu
uma mesa de conversa, da qual participei a convite de Maria Pitu.
O cacique Venâncio afirmou que sua luta busca “tratar da originalidade
do seu povo”, destacando que “o povo indígena está matando sua cultura e
se apegando a outras culturas”.
Ele relembrou seu trabalho no semiárido, incentivando povos indígenas a
se organizarem em torno de suas origens. Ao retornar anos depois, encontrou “escola,
água encanada e internet”, e apesar das dificuldades, considera a jornada
gratificante.
“Não pode ajudar quem
não quer ser ajudado.” — João Venâncio
O cacique também lembrou do apoio de não indígenas comprometidos com a
causa.
Encerramento e Reflexões
Maria Pitu, pajé e líder da Comunidade Tremembé de Tutóia, agradeceu ao cacique
Venâncio pelo apoio e firmeza na luta pela organização e reconhecimento do
povo.
O processo de conscientização, lembrou-se, é difícil por envolver
subjetividade, crenças, valores e a maneira como cada indivíduo percebe o
mundo. No entanto, desafiar essas barreiras fortalece a identidade coletiva.
Talvez a diferença esteja na forma como conseguimos nos adaptar
coletivamente.
O Próximo Passo
Enquanto este relato é escrito, a pajé Maria Pitu está em Almofala
(CE), na aldeia Tremembé do cacique João Venâncio, para participar do Encontro
dos Povos do Mar Tremembé, em Fortaleza, no dia 7 de agosto, representando
o povo Tremembé de Tutóia (MA).
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