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A Quaresma deveria ser um período de recolhimento, jejum e reflexão — quarenta dias para lembrar o sacrifício de Cristo e preparar o espírito para a ressurreição. Mas, em vez de introspecção, o que se vê é um espetáculo grotesco de autopromoção: prefeitos e vereadores descem de carros oficiais, cercados de assessores, para distribuir peixes, cestas básicas e ovos de chocolate como se estivessem apresentando um show.
O que nasceu como gesto de solidariedade cristã se converteu em mercadoria política. Em fotos ensaiadas, a “generosidade” vira merchandising, cada quilo de peixe é mensurado em curtidas e cada cesta é cenografia para conquistar votos. É o ápice da demagogia: a pena de publicizar a pobreza alheia e, ao mesmo tempo, calar sobre as soluções estruturais que poderiam arrancar essas famílias da vulnerabilidade.
E a ética? Esqueçam-na. Raros são os casos em que o benefício decorre de recursos oriundos do próprio bolso do eleito. Na maioria das vezes, trata-se de verba pública — paga pelo contribuinte — repassada a empresas contratadas sem transparência. Resultado: o erário banca o espetáculo, e o político acumula palmas e cliques, sem qualquer compromisso de longo prazo.
Enquanto a encenação acontece, ficam em segundo plano demandas urgentes: saúde pública digna, oportunidades de trabalho, escolas equipadas e infraestrutura básica. A distribuição concentrada de donativos encobre a ausência de projetos consistentes, perpetuando a lógica de migalhas onde deveria haver transformação.
No fim, resta o alerta: antes de aplaudir o peixe gratuito, perguntemos quem pagou a conta, qual empresa forneceu o material e onde está o plano para garantir dignidade ao cidadão o ano inteiro. Caso contrário, existe apenas um espetáculo político — uma hipocrisia pascal que ressuscita apenas no calendário eleitoral e enterra, na mesa farta de peixes, a esperança de mudança real.
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