lho e vejo pela janela da sala de nossa casa do Dirceu, nosso pequeno e grande quintal, com sua mangueira florida neste início de setembro, que daqui a uns três ou quatro meses, estará botando manga, mas tanta manga que minha irmã é obrigada a colocar na calçada pra ser levada pelo lixeiro ou interesse alguma pessoa que passar na rua. Mas o que me chama a atenção com aquela florada amarela e fresca é a sua parecença com os cabelos encaracolados desses rapazinhos, desses negrinhos de periferia, fortes candidatos a funqueiros, sem escolaridade e ocupação que preste, que logo na primeira chance vão engravidar a namoradinha e trazer a confusão pra dentro da casa da mãe, então o inferno estará criado.
E me ocorre uma lembrança de meu tempo. Eu sou de um tempo em que crianças e adolescentes, quando perguntados por um adulto ou professor o que seriam quando crescessem, respondiam sem hesitação, assim na bucha, que seriam do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, dos Correios, professores, engenheiros, enfermeiras, médicos, embora este último fosse um caminho longo e penoso e pouco acessível a todos. Os meninos jamais diriam, feito hoje, que gostariam de ser jogadores de futebol.
Ora, no meu tempo de menino, querer ser jogador de futebol, se isso fosse profissão, que não era, nem nunca foi no meu entendimento! O menino tinha como exemplo a profissão do pai, queria ter sua profissão, que era a que trazia o sustento da família, que lhe proporcionasse melhores condições de vida. Jogador de futebol nem ganhava dinheiro! Talvez tivessem os meninos do meu tempo como exemplo o time do Parnahyba onde os jogadores viviam as penúrias comendo da casa de “seu” Pedro Alelaf! Ora calculem! Ser jogador de futebol isso lá era, o mesmo que não ser nada.
Mas a culpa dessa glamourização da vida do jogador de futebol é da mídia, da imprensa, dessa que produz e distribui fofoca o dia inteiro, que vive inventando coisas. Se sabe hoje que tem jogador de futebol que vive na maior pindaíba, lá pelo interior do Norte e Nordeste. Desses que não tem um tostão para ir ver a família no Dia das Mães ou no Dia de Natal.
Aí quando não é jogador de futebol é ser pagodeiro, cantor. Outra ocupação que não dá um litro de leite! Qual o futuro desses jovens, tão rodeados de tecnologia, equipamentos de última geração, escolas profissionalizantes, qual o futuro desse jovem, quem o está desencaminhando? O que está dando errado? A educação perdeu o rumo? Então esse jovem rechaça a família e passa a ser um futuro cliente honorário da Central de Flagrantes.
Texto: Pádua Marques, cronista, contista e romancista, da Academia Parnaibana de Letras.
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