IGORONHON: AMARRADOR DE
CANOAS DOS INDÍGENAS OU A ILHA DO SAL
Ontem, 6 de
setembro de 2026, era fim de tarde quando mandei mensagem a um conhecido
dizendo da intenção de devolver uns escritos que havia feito a leitura a pedido
seu. Estava eu na bela província do Norte, a cidade de Parnaíba (PI) e fui ter
com o amigo Djlama Rocha Filho, ocasião em conversamos sobre meus livros já publicados
– ao que ele me fez observações sobre revisão e correções – e outros assuntos,
entre os quais textos seus sobre nossa querida Tutoia (MA).
No ponto
alto da conversa, Djalma, apresentou-me um texto escrito à mão por ele no ano
de 1981, ocasião em que esteve na Ilha do Igoronhon, ilha produtora de sal no Delta
do Parnaíba, a época em que se processava ali uma das maiores produções de sal
marinho do Brasil e empregava gente da Parnaíba e da Tutoia e de cidades vizinhas.
Era a grande Eldorado do Delta. Todo pai de família sonhava fazer dinheiro por
lá. Era trabalho duro: os estivados, assim chamados os homens da labuta,
carregavam navios e mais navios levando o sal de terra, em cestos, para os porões
das embarcações. “Sem nenhum progresso desde o tempo das pirâmides, o sal era
carregado em cestos, nas costas de um exército de homens que tinham uma
estreita prancha para subir ao convés e outra para descer, isto nos porões 2 e
4. Era uma fileira cerrada, ida e volta, cada viagem com 42 quilos nas costas
(peso médio de cada cesto). Após despejar o sal no porão, os homens recebiam
uma ficha de couro e voltavam apressados, para novas viagens. Não eram
estivadores, estes vinham de Tutóia, passavam o dia no convés jogando cartas e
ganhavam pelo trabalho que os carregadores executavam”[1].
Djlama
disse-me ainda que ele fora cotado para assumir a gerência dos trabalhos da
ilha na década de 90. Mostrou-me um grande mapa com a planta de toda a
estrutura montada na ilha, cujo documento media mais de um metro quadrado, e
ainda guardava o cheiro do sal marinho. Djalma não chegou a ocupar tal cargo,
posto que foi nessa época desativada por completo a atividade de produção de
sal no Igoronhon, encerrando-se ali a maior atividade extrativa-industrial da
Tutoia de outrora.
A produção
do sal do Igoronhon, desde 1953, passou a ser administrado por um grupo belga, o
Salvoy, e a produção tinha como destino as indústrias de soda cáustica e plásticos,
no estado de São Paulo[2].
Vejamos o
texto que Djalma transcreveu:
“Situada
entre dezenas de ilhas que compõem o Delta do Rio Parnaíba em Tutóia, no Estado
do Maranhão. Igoronhon com uma área de 107 km² com uma população de cerca 200
pessoas entre crianças e adultos habitando um conglomerado de 50 casas,
inclusive o prédio da administração e o pequeno hotel para os raros visitantes,
tem sua vila inteiramente dedicada a produção de sal. Esta pequena comunidade
é, aliás, responsável por 60 mil toneladas anuais deste produto para a Empresa
Salineira e de Navegação "Igoronhon" S/A, produção totalmente
destinada às Indústrias Químicas Eletro-Cloro S/A de São Paulo, que transforma
o sal produzido naquele desconhecido emaranhado de ilhas em soda cáustica e
outros produtos derivados.
Antes mesmo
da colonização, a ilha do Igoronhon situada nas coordenadas de 42 graus 7
minutos 30 segundos, Oeste e 02 graus 42 minutos e 30 segundos, Sul, já exercia
sua influência na região, servindo de porto e ponto obrigatório de convergência
dos silvícolas, devido a abundância de água doce. Daí a origem do seu nome. Igoronhon
– amarrador de canoas, na linguagem dos índios.
Localizada
a cerca de 60 Km de Parnaíba, 18 Km de Tutóia e aproximadamente 280 Km de São
Luís, Igoronhon tem sua vida inteiramente ligada a Parnaíba, onde a Empresa
Salineira tem sede.
O
transporte é feito totalmente por lanchas em oito horas de pouco confortável
viagem ao preço de 60 cruzeiros de ida e volta. Para casos de emergência uma
lancha da empresa pode cobrir o percurso em cerca de 1h 30min. Para facilitar
as comunicações com a sede da empresa em São Paulo, existe um poderoso
equipamento SSB de alta frequência, operada pelo funcionário Gerardo Portela,
que é uma espécie de "homem dos sete instrumentos", responsável pelo
controle das condições de tempo, temperatura, pluviometria, e até autor da
letra do hino da ilha, entoado pelos 80 alunos do Grupo Escolar nos dias de
festas cívicas e nas raras visitas de autoridades, como aconteceu em 1º de
março de 1969 quando o então governador José Sarney esteve na ilha. O
estribilho do hino resume a própria ilha:
"Igoronhon,
ilha progressiva,
Usina de
trabalho, fonte de vida,
Tu és uma
escola educativa,
Tu és um
tesouro, Ilha querida!"
Quem mora
na ilha é funcionário da "Salineira" e trabalha oito horas de segunda
a sexta-feira, e sábado até o meio-dia. Nas horas vagas, se dedica a afazeres
domésticos, pequena cultura de subsistência, alguns à pesca e nos domingos e
feriados ao clube de futebol que recebe em seu campo os times das redondezas. A
criançada que pode atingir até a 4ª série do primeiro grau tem nas excursões e
piqueniques periódicos os seus melhores momentos de lazer.
Isolada do
continente, Igoronhon possui um pequeno hotel, servido de geladeira, luz
elétrica, aparelho de TV que capta o TV Canal 2 de Fortaleza e que mantém os
habitantes informados do que acontece no resto do mundo.
O clima da
ilha é relativamente estável na faixa de 27 a 30 graus centígrados,
pluviometria de 1000 milímetros anuais, vento com velocidade de 10 metros por
segundo de agosto a dezembro, com direção predominante de leste a nordeste,
possuindo uma pequena área de pouso, onde já existiu um campo para pequenos
aviões.
A flora é
composta principalmente de carnaúbas, ciriba[3],
coqueiros, cajueiros, pau-d'arco, tamboril e catingueiras, além de pequenos
arbustos. A fauna é formada atualmente por garças, guarás, bem-te-vi, socós,
maçaricos, sabiá, marrecas, colhereiras e paturis. As espécies maiores de
animais silvestres foram extintas.
O antigo
ponto indígena, amarrador de canoas, é atualmente um porto de verdade,
recebendo, principalmente no verão, até navios de grande calado que vão à ilha
apanhar sal. Totalmente mecanizada, o embarque se faz rapidamente, com uma
capacidade horária de 80 toneladas. O embarque é feito por meio de esteiras,
alimentada, por sua vez, por tratores. Brevemente, o transporte do sal, após
cristalizado, será transportado em esteiras diretamente para o cais, dentro de
um esquema testado com total sucesso.
Igoronhon
deverá alimentar nos próximos anos uma nova era de progresso com o plano de
expansão da "Salineira" que pretende ampliar a produção, passando das
atuais 60 mil para 100 mil toneladas anuais para atender às exigências da
empresa em São Paulo que compra atual diferença aos produtores do Rio Grande do
Norte. No plano de expansão, outras ilhas do Delta serão incorporadas à
produção de sal, como são os casos de Caeira, Lavradio, Beira Fundo, Enforcado,
Bagre Assado, Raimundo Torquato e Ilha das Garças.
Enquanto
se abrem as perspectivas industriais para algumas dezenas de ilhas do Delta do
Parnaíba seria bom que já se pensasse em aproveitar também o enorme potencial
turístico da região, com a elaboração de estudos da região, onde o Rio Parnaíba
forma um bonito delta, envolvendo e isolando várias porções de terras, entre as
quais embarcações a vela e a motor poderiam deslizar levando e trazendo
turistas e estudiosos que se interessassem pela região. O delta com suas belezas naturais é uma
região que ainda não foi "descoberto" nem mesmo pelos estudiosos, e
não obstante pode oferecer uma variada série de atrativos em termos de
panorama, banhos, pescaria, viagens diferentes em embarcações fluviais e
contato com a natureza.” (grifos nossos)
TEXTO DE EGINARD
COSTA. JORNAL O POVO. SÁBADO, 24.04.1976. FORTALEZA / CE. BRASIL.
Texto escrito à mão,
retirado do jornal, por Djalma Rocha.
IGORONHON,
SETEMBRO/81
[1] Relatos do capitão CLC
Carlos Dufriche do Navio Kalu, que carregava com sal produzido no Igoronhon. Reportagem
de Misael, 2010.
[2] Veja o jornal Jornal
do Brasil (RJ) - 1970 a 1979, na hemeroteca digital: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_09&pesq=%22igoronhon%22&pasta=ano%20197&pagfis=237254.
[3] Trata-se do O mangue-seriba
(também conhecido como mangue-preto, siriúba ou sereíba) é uma das três
principais espécies de árvores que compõem os manguezais do Brasil. Ele
pertence ao gênero Avicennia (como as espécies Avicennia schaueriana
e Avicennia germinans).




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