Conversas de banco de ônibus

 

 *Pádua Marques.

Artigo
Data09/06/2026Leitura4 min

Quantas e quantas vezes a gente entra num veículo de transporte público e sem querer fica a ouvir as conversas alheias. Não é porque a gente quer, mas pelo volume alto. Porque tem gente que sai de casa de manhã cedo, com aquela infinita vontade de distribuir com seus vizinhos de ônibus, sejam conhecidos da mesma rua, colegas de viagem, colegas de escola, de missa, de mercado, a saúde, as compras, os afazeres de dentro de casa e até os aborrecimentos.

E a gente fica ali no canto, próximo à janela ou no banco dos bobos, ouvindo e concordando com um aceno de cabeça, um resmungo, a toda tentativa de nos colocar naquela conversa sem pé nem cabeça, conversa de doido, de uma pessoa que a gente nem sabe de onde saiu, em que rua mora, se tem família grande e acha que nós temos obrigação de saber tudo sobre sua vida, seus costumes, suas preferências de cores de roupas e até as confusões dentro de casa.

Dia desses, uma tarde que fazia um calor dos infernos, numa dessas vans que vão para o centro, duas mulheres e que pelo jeito eram colegas de escolas em tempos passados, velhas conhecidas de tricotar a vida alheia, iam conversando e bem alto o volume. Coisa de se ouvir lá na cozinha. A mais nova, aquela de boca de fuxico, mais parecendo um saco de pão, largou a contar que tem um filho, que está querendo seguir a carreira de tatuador. Ela e uma filha estão pagando um curso especial, porque ele disse que é profissão que dá dinheiro e pode até sair na televisão.

Isso mesmo, um jovem de periferia, que a mãe vive sustentando com almoço, janta e rede, ganha ela um salário mínimo, faz uns bicos aqui e ali. Um rapaz já de barba no queijo e que dentro de pouco tempo vai arranjar uma doidinha, e bota dentro de casa pra lhe dar uns netos. Quer porque quer ser tatuador! E a outra conversadeira, com cara de costureira, cheia de bolsas, ia ali concordando em tudo, dando de vez em quando um palpite, aumentando aquela arrumação besta.

E eu do outro lado ouvindo tudo e já com vontade de entrar na conversa. Pra dizer que tatuador, é e foi no meu tempo ocupação de malandro e que ela deveria tomar cuidado. Agora a conversa das duas comadres ia noutro rumo, as doenças. Ela se queixava de ter pressão alta, diabetes, osteoporose, tomava uns dez comprimidos pra pressão e outros tantos para o diabetes. E a van seguindo viagem e a conversa ficando animada. Pelo jeito e pelos sintomas, ainda não morreu de besta.

E aquele povo, que pouco tem valor vai seguindo sua vida. Vai pra cidade, vai bater cabeça nos consultórios, corredores de clínicas e hospitais, levar carão de um ou de outro, pagar carnês, esquentar a bunda nas casas de empréstimo consignado, no Paraíba, passar no Elizeu Martins e no Toureiro, atravessa a praça da Graça, não procura beber um copo d’agua, desce no rumo do Café do Ponto, atravessa a Humberto de Campos sem cuidados, olha que a cidade está crescendo, o trânsito está matando gente. E essa gente não se incomoda de saber em quem votou na última eleição, as lojas estão cheias de camisetas da Seleção Brasileira, tem que voltar correndo pra casa colocar o arroz no fogo. Amanhã ela vai sair é mais cedo. É a vida. 




* Pádua Marques, cronista, contista e romancista, da Academia Parnaibana de Letras  e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba. 

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