OS PORTAIS SE ABRIRAM: falecimento de Dona Raimundinha Fonseca

 



Hoje o céu chorou em Tutóia.

E a chuva que caiu mansa sobre as ruas,

sobre as dunas, sobre os coqueiros e sobre o mar,

parecia saber

que Dona Raimundinha havia partido.

Quase cem anos de existência.

Noventa e nove voltas em torno do tempo,

carregando no olhar

o silêncio das mulheres sábias

que conhecem mistérios

que nem os livros ousaram escrever.

Dona Raimundinha,

professora de gerações,

mãe de palavras,

semeadora de respeito,

guardava nos gestos simples

uma grandeza que não fazia barulho.

Amava Nossa Senhora,

a mãe de Jesus,

e caminhava para a igreja

mesmo quando a vida lhe cobrou dores.

Certa vez, o fêmur quebrado numa estrada,

numa batida de moto,

não lhe tirou a fé.

Porque existem pessoas

que continuam andando

mesmo quando o corpo sangra.


Seu irmão atravessou a Segunda Guerra Mundial,

lutou na Itália pelo Brasil,

venceu batalhas humanas,

mas Dona Raimundinha travou batalhas maiores:

as silenciosas,

as da alma,

as do segredo guardado.

Ela viu coisas

que a história não conta.

Ouviu sinais

que poucos suportariam ouvir.

Teve contato com mistérios do universo,

com presenças além da Terra,

e levou consigo detalhes

que escolheu confiar apenas ao infinito.

Talvez porque certos segredos

não pertencem aos homens,

mas às estrelas.

Hoje, Tutóia inteira lhe abraça.

As gerações antigas,

as crianças que aprenderam a ler,

os amigos, os vizinhos,

os que ouviram seus conselhos em tardes lentas,

todos se levantam em silêncio

para agradecer.

Obrigado, Dona Raimundinha.

Pela paz.

Pela coragem.

Pela fé.

Pela delicadeza rara

de quem viveu muito

sem perder a bondade.

E eu creio, grande amiga,

que a chuva desta noite

não foi apenas chuva.

Era o céu abrindo caminho

para sua chegada.

Descanse entre as luzes eternas.

E quando o tempo permitir,

tomaremos novamente um café,

falaremos das coisas impossíveis,

e a senhora sorrirá daquele jeito sereno,

como quem sempre soube

que o universo é muito maior

do que os homens imaginam.


Tutóia-MA, 12 de maio de 2026.


Geraldo Forte

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