DISCURSO
DE POSSE DO HISTORIADOR EUGES LIMA NA ACALT, NA CADEIRA DE N.º 13, PATRONEADA
POR ALMEIDA GALHARDO
Senhor
presidente da Academia de Ciências, Artes e Letras de Tutóia (ACALT), professor
Antônio Gallas Pimentel,
Autoridades
presentes,
Demais
confrades e confreiras,
Senhoras
e senhores,
Boa noite.
Recebo
hoje, com profunda emoção, a honra de ingressar nesta Academia, ocupando a
Cadeira nº 13, que tem por patrono o maior poeta que Tutóia já ofereceu ao
Maranhão e ao Brasil: Almeida Galhardo.
Sinto
que este momento transcende o protocolo. É mais que uma cerimônia de posse: é
um reencontro — reencontro com meus conterrâneos, com amigos e colegas de
infância e adolescência, reencontro com minhas memórias desta terra, com sua
história, seu povo e sua gente. É também o reencontro de Tutóia com a poesia e
a história de Almeida Galhardo. Como ele, somos filhos desta terra de areias
brancas, de ventos e gaivotas, de sonhos e lembranças.
Desde
menino, seu nome me era familiar, ressoando nas conversas dos mais velhos e no
colégio que o homenageia — escola fundada pelo padre Hélio Maranhão, em 1964,
com o nobre propósito de preservar a memória do poeta. Foi esse gesto simples e
grandioso que impediu que sua lembrança se perdesse na névoa do esquecimento.
Ainda
assim, sua poesia permaneceu silenciosa por décadas, adormecida nas páginas
amareladas dos jornais de São Luís, onde um dia brilhou.
Há
alguns anos, percebendo que o centenário de seu nascimento se aproximava, em
2022, senti que não seria justo permitir que essa data passasse sem a devida
homenagem. Reavivei então o compromisso de resgatar sua história e sua obra.
Como historiador e como filho desta mesma terra, entendi que a Tutóia de hoje
ainda devia um tributo ao seu poeta maior.
E
o fiz movido pela convicção de que não se apaga uma voz que cantou o azul, o amor
e a liberdade das gaivotas.
Ao
assumir a Cadeira nº 13 desta Academia, é também meu dever reverenciar a
memória de José Carlos Ramos (1949–2017), seu primeiro ocupante.
Filho
de José dos Santos Ramos e Maria Madalena Araújo Ramos, nascido em 17 de
dezembro de 1949, José Carlos formou-se em Pedagogia, foi bacharel em
Filosofia, licenciado em Ciência da Religião e pós-graduado em Gestão Pública.
Servidor dedicado, exerceu várias funções públicas, entre elas a de Secretário
Judicial da Comarca de Tutóia, cargo no qual se destacou pela competência.
Intelectual
inquieto, foi sócio-fundador da ACALT e ocupou com brilho esta Cadeira nº 13,
orgulhoso de ter como patrono Almeida Galhardo. Ativo na vida institucional,
serviu como orador oficial e presidiu a Academia nos biênios 2003–2004 e
2008–2009. Cultor da história local, dedicou-se à memória de Tutóia e ao legado
de seus personagens.
Sua
produção literária reflete essa sensibilidade. Entre suas obras, destacam-se A
Saga dos Teremembés (2013) e Almeida Galhardo: o poeta das gaivotas (2018),
publicada postumamente, além de diversos trabalhos inéditos. Faleceu em Tutóia,
em 21 de agosto de 2017, deixando um legado de serviço público, vida acadêmica
e devoção às letras. Hoje, ao ocupar esta Cadeira, presto justa homenagem ao
seu primeiro titular.
Passo
agora ao elogio ao patrono desta Cadeira: o poeta, escritor, jornalista e
aviador Almeida Galhardo, nascido Francisco das Chagas Almeida Soares, em 2 de
dezembro de 1922, na Rua Senador Leite, em Tutóia. Filho de Pedro Luiz Soares e
Joaquina de Almeida Soares, foi um menino inteligente, de imaginação viva e
alma sensível. Aos quatorze anos, partiu para São Luís, guiado pelo sonho de
sua família católica, para estudar no Seminário Santo Antônio.
Foram
sete anos de vida religiosa, até que o jovem seminarista percebeu que sua
verdadeira vocação não era o altar, mas a palavra. Surgia, então, o poeta. Para
não ser descoberto no seminário, passou a assinar seus textos com o pseudônimo
“Almeida Galhardo”, nome que se tornaria sua identidade literária.
Ao
deixar o claustro, mergulhou no jornalismo e na literatura. Escreveu para
Correio da Tarde, para os Diários Associados e para o Diário de São Luís. Foi
funcionário público e, mais tarde, aviador — talvez porque sonhasse não apenas
com versos, mas também com o céu.
Galhardo
foi membro fundador do Centro Cultural Gonçalves Dias, em 1945, convivendo com
nomes que depois se tornariam célebres — Lago Burnett, Ferreira Gullar, José
Sarney, Vera-Cruz Santana, Nascimento de Moraes Filho, entre outros.
Mário
Meireles o registrou em Panorama da Literatura Maranhense (1955); Rossini
Corrêa o analisou em O Modernismo no Maranhão (1989). Lago Burnett chamou-o de
“o poeta das gaivotas”. João Mendonça Cordeiro lamentou que fosse “o mais
esquecido dos poetas do Maranhão”.
Hoje,
contudo, afirmo com orgulho: esquecido, não mais.
Sua
poesia, dividida tradicionalmente em três fases — a religiosa, a das
influências e a do lirismo arrebatado — reflete a trajetória de um espírito em
busca de si mesmo.
Do
jovem seminarista ao poeta apaixonado; do condoreiro às portas de um novo
lirismo social, Galhardo evolui como quem sobe os degraus do infinito.
Em
sua primeira fase, canta a fé, a dor, a pureza, a saudade — é o poeta do
coração e das orações.
Na
segunda, deixa-se influenciar por Maranhão Sobrinho, Assis Garrido e Olavo
Bilac, lapidando a forma e a sensibilidade.
Na
terceira, explode em intensidade, como em Erupção de Amor e Canto de Fogo, atingindo
o ápice de sua força lírica.
E
quando parecia iniciar uma nova etapa, mais consciente e voltada ao povo, o
destino o interrompeu tragicamente.
Em
8 de agosto de 1948, aos vinte e cinco anos, o poeta das alturas, que tanto
cantara o voo das gaivotas, caiu com o avião que pilotava. O céu o chamou de
volta — como se o quisesse entre os seus.
São
Luís chorou. Tutóia silenciou. O Maranhão perdeu um de seus filhos mais
promissores.
Passadas
sete décadas, reencontramos sua voz. Vasculhando jornais antigos, resgatamos
poemas antes inéditos — vinte novos poemas, somando-se aos treze já conhecidos.
Reunidos,
deram origem ao livro Poesia Reunida, sua primeira obra publicada, ainda que
postumamente.
Assim,
pela força da memória e da pesquisa, Almeida Galhardo renasce — agora não
apenas como lembrança, mas como patrono eterno desta Cadeira.
Senhoras
e senhores,
A
Cadeira nº 13, que hoje tenho a honra de ocupar, será doravante um espaço de
preservação e estudo de sua obra.
Quero
que cada jovem tutoiense, ao passar pelo colégio que leva seu nome, saiba quem
foi Almeida Galhardo — o poeta que ousou sonhar, amou as palavras, escreveu com
o coração e morreu com as asas abertas.
Que
esta Academia, sob a presidência do professor Antônio Gallas Pimentel, continue
sendo farol das letras e da memória de nossa terra.
E
que, ao falarmos de Almeida Galhardo, possamos repetir, com a emoção de quem
reencontra um irmão perdido no tempo:
“Os
grandes homens nascem e morrem depressa, para que suas obras permaneçam eternas
entre os vivos” (Cunha, 1969).
Hoje,
Tutóia o recebe de volta.
E
eu, com humildade e gratidão, recebo a honra de ser a voz de seu legado nesta
Cadeira.
Como
escreveu o poeta e escritor Carlos Cunha:
“Havia em Galhardo um poeta
extraordinariamente lírico, dominado pelos sentimentos.
Havia em Almeida Galhardo um profundo amor
pelas alturas.
É pequena esta homenagem que presto a um
dos nossos maiores poetas.
Mas os grandes homens são assim: nascem e
morrem depressa para que suas obras permaneçam eternas entre os vivos.
Quem, de bom senso, não recorda o poeta de
Tutóia, da terra das areias brancas, que será cantado enquanto houver poesia na
terra? ” (Cunha, 1969).
Muito
obrigado.
Data da posse: 15 de novembro do ano 2025, no Auditório da Escola Almeida Galhardo, na Rua Senador Leite.
Foto: Elivaldo Ramos

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